Certos alimentos, como ervilhas,
vagens e feijão, contém uma quantidade expressiva
de açúcares complexos, que são formados
pela ligação entre 2 ou mais sacarídeos.
Neste caso, os açúcares são oligossacarídeos
- moléculas formadas pela repetição de
algumas unidades sacarídicas. Os oligossacarídeos
presentes nestes alimentos são derivados da galactose
(verbascose, stachiose e rafinose), que requerem uma enzima
específica, a a-galactosidase, para serem hidrolisados.
Entretanto, o trato intestinal não possui esta enzima,
resultando em uma digestão incompleta destes oligossacarídeos.
Estas moléculas, não hidrolisadas, são
fermentadas anaerobicamente por alguns microorganismos presentes
no colon, e o processo libera gases como o CO2, H2, CH4 e
traços de H2S. Nosso organismo, entretanto, possui
enzimas para promover a hidrólise de outros oligossacarídeos
ou polissacarídeos.
Existem fármacos que
diminuem a intensidade da flatulência; um deles é
o Beano, que é, na verdade, um suplemento de a-galactosidase
e sucrase, duas enzimas necessárias para a completa
hidrólise dos oligossacarídeos. Desta forma,
não existe fermentação anaeróbica
e, consequentemente, a formação de gases. Embora
seja um comportamento fisiológico normal, a flatulência
é socialmente negligenciada, e todos evitamos falar
sobre o assunto. Mas, na sala de aula, o professor pode conseguir
a atenção dos alunos facilmente, caso anuncie
que "hoje aprenderemos a química da flatulência".
E, com esta motivação, ficará fácil
introduzir conceitos como "sacarídeos", "ligação
sacarídica", "hidrólise", "polissacarídeos",
entre outros.
Este
artigo é uma adaptação de: "Chemistry
and Flatulence: an introductory enzyme experiment", Hardee,
J.R et al, Journal of Chemical Education, 77 (2000), 498.
(QMC WEB)
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