Prof.Dr.Sandro Tonso
A palavra “cardápio”, no contexto da Educação,
não chegou agora.
Além, é claro, dos cardápios
das cantinas, do cardápio semanal preparado pelas cozinheiras
e por todos os outros usos que envolvem o cotidiano da alimentação
nas escolas, pode-se encontrar expressão como “Cardápio
de Projetos”, “Cardápio de Saber”, “Cardápio
de Idéias”, sempre com o sentido explícito
listas de “projetos”, “saberes” ou “idéias”
colocadas à disposição de alguém supostamente
interessado nelas.
Neste sentido, “Cardápio de Aprendizagem”
não se constitui num mistério e sua idéia
básica pode ser apreendida facilmente por qualquer pessoa
que já tenha ido ou observado um restaurante alguma vez
na vida. É um elenco de atividades (“Itens de Cardápio”)
que têm por objetivo proporcionar a formação,
no caso, de Educadores Ambientais na sua região.
Da mesma forma, a aproximação entre
“alimentação” e “educação”
não é de todo estranha. Curiosamente, em Portugal,
berço da nossa língua pátria, a palavra “CARDÁPIO”
não existe e tem como sinônimo a palavra “EMENTA”,
que, por sua vez, no Brasil, tem o sentido emprestado à
Educação como um resumo de uma disciplina.
Também vem de Portugal uma aproximação
que diversos autores fazem, inclusive de modo poético,
entre SABER e SABOR. Lá, o verbo “saber” tem
ainda no uso corrente o sentido de “ter conhecimento”
e “ter sabor”. Uma determinada comida sabe bem! Na
Itália, quando uma comida está sem gosto, diz-se
que ela “non sa di niente” (“não sabe
de nada”).
Em latim, a raiz comum às duas palavras,
“sapere” tinha o significado de “ter gosto”.
Aqui
no Brasil, é muito comum as pessoas usarem a palavra “gosto”
para expressões do tipo: “ter
gosto pelos estudos”. Assim como na literatura, muitos filmes
têm nos mostrado esta relação entre alimentação
e conhecimento, desde “Festa de Babete”, “Vatel”,
“Tomates Verdes Fritos”, “Simplesmente Marta”
até o recente, “O Tempero de Vida”; finalmente,
nos jornais e na televisão, encontramos esta ligação
em artigos e programas como o “Saber-Sabor” idealizado
por Rubem Alves. As ligações são muitas e
você também deve ter a sua forma de ligar: saber,
cardápio e sabor. Como seria?
Não é difícil aceitarmos
que nós nos alimentamos tanto de coisas para comer, quanto
de outras “coisas”, materiais e imateriais que nos
fazem crescer, que nos restauram (daí a palavra “restaurante”).
Coisas que alimentam o corpo; coisas que alimentam a alma:
“Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida
A gente que comida diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte”
(Arnaldo Antunes, em “Comida”)
Com tudo isso, podemos começar a discorrer
sobre a idéia de “Cardápio de Aprendizagem”
especificamente na Formação de Educadores Ambientais
proposta pela Diretoria de Educação Ambiental do
Ministério do Meio Ambiente. Me perdoe, você Leitor,
mas como educador e amante da cozinha, da arte de alimentar e
alimentar-se (aliás vários educadores e educadoras
gostam da culinária!), vou radicalizar nas metáforas
gastronômicas da palavra “cardápio”.
Ela é tão apropriada ao sentido educacional no qual
está inserida neste texto que falando da Culinária
se fala da Educação e vice-versa.
CONCEITUAÇÃO: FAST FOOD
“versus” SLOW FOOD
Apesar do uso destas expressões em inglês,
já é de uso corrente em diversas partes do mundo,
a idéia de “fast food” como algo feito rápido,
padronizado, produzido em grandes quantidades. Por trás
da idéia de produção em massa, para maior
eficiência de produção e barateamento de custos,
há outros “custos” não internalizados
(ou seja, não considerados) pela economia capitalista neo-clássica.
São custos que são “pagos” pelos indivíduos-consumidores
na forma de homogeneização dos gostos, das necessidades
e dos desejos de cada um, transformados em desejos da “maioria”.
Se para o processo industrial em larga escala
(ao qual a Educação também se adaptou), a
fabricação de milhares de objetos idênticos
gera a chamada “economia de escala”, num processo
de formação de pessoas, a tentativa de forma(ta)ção
das massas, de uniformização, de “pasteurização”
da educação, produz “custos” humanos
e sociais ainda não mensurados. Os riscos da perda de IDENTIDADE,
de PARTICIPAÇÃO no próprio destino, o bloqueio
à EMANCIPAÇÃO, a destruição
da AUTONOMIA, da POTÊNCIA DE AÇÃO, são
conseqüência diretas da massificação
da Educação que se quer questionar ao propor um
“Cardápio de Aprendizagem” definido por vocês
próprios, nos seus “Coletivos Educadores”,
com suas definições do quê seja prioritário
para sua realidade socioambiental.
É o oposto do “fast food”
educacional; é o movimento “SLOW FOOD”, nascido
na Europa, em oposição à leviandade do ato
de se alimentar, preocupando-se com o quê comemos, como
comemos e com quem comemos. É uma oposição
à opressão cultural que a comida “fast food”
impõe ao se instalar (façam as perguntas abaixo,
também, trocando o contexto “gastronômico”
pelo “educacional”):
- Pode um cardápio único, padronizado, atender
à fome de diferentes pessoas nos
5 continentes?
- Pode-se uniformizar o modo de preparo e a forma de servir os
alimentos no
mundo todo?
- É possível que todos os itens de cardápio
estejam presentes durante o ano todo,
não importando a época do ano e/ou o país?
Os princípios do movimento “SLOW FOOD” apresentam
muita sintonia com
aqueles da Educação Ambiental crítica, emancipatória:
- utilizar somente alimentos cultivados/criados sem auxílio
de
agrotóxicos/hormônios;
- valorizar os agricultores/criadores da própria região;
- servir somente produtos da estação, evitando a
produção/amadurecimento
artificial dos alimentos.
Estes princípios lhe dizem algo? Soam
familiares quando os contextualizamos na Educação
Ambiental. Como seriam os “Itens de Cardápio”
da sua região, neste período do ano, se você
tivesse um restaurante/escola “slow food”?
A alimentação/educação
“fast food” é um afastamento da nossa realidade
socioambiental regional, é uma artificialização
da formação humana, um descolamento do território,
da cultura. Um processo educativo não pode ser importado
sem adaptações e apropriações específicas.
E com relação às idéias, princípios
de formação e conteúdos presentes nos currículos
de sua região. São adequados? De onde vieram? Foram
discutidos coletivamente? Atendem a quais necessidades e/ou interesses?
Representam uma busca de re-ligação entre pessoas
da comunidade e entre estas e seu contexto socioambiental? São
perguntas importantes que podem ajudar neste processo de fazer
uma Educação Ambiental com a “sua”,
a “nossa” cara! A cara de todos e de cada um de nós!
METODOLOGIA: CARDÁPIO NÃO É UM “PF”
(PRATO FEITO)
O “prato feito”, ou seja, os programas de formação
estruturados em “grades” e “disciplinas”,
tem a característica de engessar o processo de formação,
considerando os educandos como uma mesma massa uniforme, com mesmos
desejos e mesmas lacunas. O “prato feito” é
também o prato único, sem possibilidades de escolha.
A oportunidade, oferecida por um “cardápio”,
é a de oferecer um amplo leque de escolhas, de atividades
de variados tipos em qualidade e quantidade, suficientes para
atender à “fome de saberes” dos diversos educandos.
Não engessar a formação é uma atitude
política, na medida em que, desta forma, afirma-se a IDENTIDADE
e DIVERSIDADE, acentua-se a posição de que somos
todos diferentes e que a diferença não é
um problema, muito pelo contrário, é uma característica
que deve ser valorizada, incentivando que cada educando busque
os itens que lhe sejam mais apropriados,
incentivando-o na construção de sua AUTONOMIA.
Na medida em que os educadores que estamos envolvendo tem as mais
variadas histórias de vida e de construção
pessoal, a maior variedade de itens de cardápio, proporciona
um processo mais adaptável a cada um: integrando saberes
acadêmicos e populares; atividades prioritariamente de raciocínio,
com atividades de sensibilização; debates de valores
e atitudes com oferecimento de informações básicas,
e assim por diante. Quanto mais variado o “Cardápio”,
maior a possibilidade de desenvolvimento sem necessidade de crescimento
inútil, maior a possibilidade de crescimento sem
descaracterização e finalmente, maior a possibilidade
de caracterização que leve a um sentimento de PERTENCIMENTO
a uma COMUNIDADE DE APRENDIZAGEM, diversa e específica.
ITENS DE CARDÁPIO: VARIEDADE E QUALIDADE Os Cardápios,
seja no sentido material do objeto que nos entrega o garçom
ou no sentido do seu conteúdo, não devem alimentar
somente o corpo.
Lembre-se da beleza de como podem ser confeccionados, lembrem-se
dos nomes dos pratos que nos trazem sensações pela
sonoridade ou pelas pessoas e lugares que invocam: “molho
roquefort”, “filé à provençal”,
ou nos nossos cardápios caseiros: “o pudim da vovó”,
“uma receita que veio
do Japão”, “uma moqueca baiana”, etc..
Da mesma forma, nossos “Cardápios de Aprendizagem”
não podem se limitar à questão técnica
e objetiva de oferecerem somente informações, mas
devem oferecer atividades que brinquem conosco, que nos tragam
à memória da nossa história, que nos alimentem
com poesia, que desenvolvam o sentido lúdico, afetivo e
estético, enfim, o cardápio deve conter todas as
formas que afetem o educando. Lembre-se que afetividade e afeto
vem da palavra afetar; se queremos transformar nossos educandos,
devemos tocá-los e, para isso, a afetividade é fundamental.
Nós obtemos o afeto de outro quando possibilitamos que
o outro se desenvolva em toda sua potencialidade: intelectual,
artística, afetiva, etc.
Neste sentido, os itens de cardápio podem e devem ser o
mais variado possível. Como num restaurante ou numa família,
o cardápio é também uma forma de comunicação
entre o(s) cozinheiro(s) e os que querem se alimentar. Normalmente,
o cardápio apresenta o que há de melhor a cozinha
sabe fazer (às vezes, aparece sob a forma de “sugestões
do chef”). O cardápio deve também representar
a cultura da própria região na qual está
inserido. Quando se vai a um restaurante japonês ou a uma
jantar de uma família italiana, tem-se naturalmente uma
expectativa dos itens que “não devem faltar”,
sob pena de descaracterizar o local.
O Cardápio de Aprendizagem para Formação
dos Educadores Ambientais da sua região deve, portanto,
apresentar itens de diferentes naturezas: informativos (que tragam
informações, conteúdos e diferentes tipos
de conhecimentos necessários para fazer com que o Educador
Ambiental construa um repertório mínimo que permita
participar de modo ativo nas questões socioambientais da
sua região) e formativos (que proporcionem a construçãode
metodologias, valores, percepções e atitudes do
próprio educador em formação). Da mesma forma,
devem ser oferecidas atividades que permitam o desenvolvimento
do senso estético e ético sobre a atuação
da Educação Ambiental e que ajudem o Educador a
atuar de modo cooperativo, crítico e produtor de autonomia
entre seus educandos.
O CARDÁPIO DE SUA REGIÃO
Um “Cardápio de Aprendizagem” também
deve ser regional, ou seja, deve oferecer as melhores atividades
que o Coletivo Formador tenha desenvolvido e, ao mesmo tempo,
deve ser representativo da região na qual está inserido.
Obviamente, numa região de cultura extensiva de cana de
açúcar, de latifúndios, deve-se oferecer,
por exemplo, uma atividade de apresentação/discussão
desta temática no seu Cardápio, tanto porque deve
existir um significativo conhecimento popular e acadêmico
acumulado (pela experiência de vida cotidiana) quanto porque
os Educadores Ambientais devem esperar que esta temática
esta incluída na sua formação, por considerá-la
importante para a discussão da qualidade de vida da população
local.
Em regiões com outras características, de mar, de
montanhas, de migração estrangeira, de atividades
econômicas específicas, estas deverão aparecer
das mais variadas formas como itens no seu “Cardápio
de Aprendizagem”: “curso de história regional”,
“visitas a campo”, “estágios em prefeituras
e órgãos regionais”, “debates temáticos
com pessoas de diferentes setores”, “criação
de jornais/boletins da região/bairro”, “criação
de um cineclube com temáticas locais”, “valorização
de
ESTRUTURAS E ESPAÇOS
EDUCADORES locais”, e dezenas de itens
que somente vocês, Leitor e colegas, com o conhecimento
que têm, podem enumerar e criar. Um Cardápio, assim
concebido, coletivo e diverso, garante a COMPLEXIDADE num processo
amplo e rico de formação de Educadores Ambientais.
Por outro lado, nas nossas compras em feiras/mercados ou nos restaurantes
aparecem, com freqüência, a expressão: “frutas
da estação”. Os cardápios, portanto
não podem ser sempre os mesmos num mesmo restaurante (ou
Coletivo Educador).
As modificações sazonais do ambiente
também podem influenciar na riqueza e diversidade do Cardápio.
Com as modificações do ritmo de vida no ano, as
atividades o Cardápio podem e devem variar para se adaptar
a elas. Por exemplo, nos períodos de chuvas há atividades
específicas de observação e aprendizagem
que não podem ser feitas em outras épocas do ano.
Nos períodos de colheitas, em certas regiões, há
uma migração sazonal de trabalhadores que nos permite
conhecê-los e saber que em outros meses, esta população
está em outras regiões.
UM CERTO CAMINHO PROPOSTO
Ainda, sobre os “Itens de Cardápio”. Algumas
culinárias regionais, em especial a italiana, francesa,
e também a nossa de casa, tem uma certa ordem de oferecimento
das iguarias. Todos nós ouvimos, ao menos “um milhão
de vezes”, nossos pais nos impedindo de comer (e nem experimentar!)
o doce antes do salgado!
Nas famílias e restaurantes italianos, temos o “antipasto”
(entrada, que prepara o paladar, que deve ser um convite e não
saciar a fome), “il primo piatto” (o primeiro prato,
ou seja, uma massa ou risoto, que acalma a fome inicial e prepara
para o prato principal), “il secondo” (o segundo prato,
ou seja uma carne acompanhada de legumes, que deve ser saboreada
com prazer e não com fome), “la insalata” (as
saladas que são de mais difícil digestão
e devem chegar ao estômago quando este estiver em plena
atividade para facilitar o aproveitamento das fibras), “i
dolci o frutta” (a sobremesa de doces ou frutas, que fornecem
energia rápida – açúcares – para
a conclusão da digestão) e “il digestivo”
(uma bebida alcoólica, também, para facilitar a
digestão).
Este ritual, bem conhecido por alguns de nós que ainda
o mantém, tem uma razão de ser. Segundo algumas
culturas e pessoas, há uma certa ordem para se alimentar,
há alguns itens que não podem faltar: “se
não tiver arroz, não parece que eu comi!”.
Reparem que cada item de cardápio está numa ordem
e contribui para o processo todo da digestão. Será
que na definição do “Cardápio de Aprendizagem”
da sua região, há alguns itens que vocês consideram
fundamentais para a Formação dos Educadores Ambientais?
Há alguns itens que vocês vão considerar imprescindível
que todos façam? Alguma experiência pela qual todos
devam passar? Algum curso que todos devam fazer?
Da mesma forma, há atividades do seu Cardápio que
vocês desejam oferecer antes que outras? Atividades preparatórias
a outras; atividades de estímulo a outras; atividades que
facilitem o aproveitamento de posteriores... É claro que
não se está propondo um engessamento (refutado linhas
acima!), mas há uma opção político-pedagógica
que deve transparecer no cardápio, há uma opção
política de formação de Educadores Ambientais
da sua região que não deveria ser qualquer uma,
mas uma própria ao seu contexto socioambiental.
O “CARDÁPIO DE APRENDIZAGEM” E VOCÊ
Você pertence a uma Instituição
educacional ou uma instituição educadora de alguma
maneira? O que você acha que os futuros Educadores Ambientais
esperam que a sua Instituição ofereça para
a formação deles? Você acha que você
e/ou a sua Instituição podem contribuir para a formação
deles? Se sim, como? Qual o “Item de Cardápio”
você tem a oferecer? Porque você considera que seria
importante que eles “experimentassem” o seu item?
Qual a relação do seu “Item de Cardápio”
com os demais “Itens” oferecidos pelas outras instituições
parceiras no Coletivo Educador de sua região?
Estas são questões importantes para a confecção
e discussão “Cardápio de Aprendizagem”
do seu Coletivo Educador, após a definição
do Projeto Político Pedagógico. É no “Cardápio”
e nas sugestões de prioridades de itens que a concepção
de formação que vocês definiram vai se materializar.
E mais! Estas questões também são importantes
para que o educando possa escolher melhor os itens que mais atendam
às suas necessidades: seus desejos (prazer) e lacunas (fome),
construindo um caminho único para cada Educador Ambiental
da sua região e, mesmo assim, formando uma COMUNIDADE DE
APRENDIZAGEM que se reconhece pois foi construído um sentimento
de PERTENCIMENTO mesmo na DIVERSIDADE, próprio às
famílias nos almoços de Domingo!
¹Professor da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP
no Centro Superior de Educação
Tecnológica – CESET – Membro da RUPEA –
rede Universitária de Programas de Educação
Ambiental para
Sociedades Sustentáveis